28 DE JUNHO - 13º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A
A primeira leitura, do segundo livro dos Reis, fala-nos de uma santa mulher, de Sunem, que dá hospitalidade ao profeta Eliseu. Dar hospitalidade… acolher alguém… socorrer o necessitado… perceber que «o outro é um dom» (como lembrou o papa Francisco na mensagem da quaresma deste ano), uma oportunidade que nos é oferecida para nós lhe abrirmos a porta e acolher (… não fazer caso, virar costas, «despedir de mãos vazias»…). A hospitalidade desta mulher é símbolo da hospitalidade divina: Deus acolhe gratuitamente a todos e cada um de nós, Deus tem um lugar no seu coração para todos e cada um de nós. E há aqui também um desafio à nossa hospitalidade gratuita: fazer o bem e ajudar quem precisa sem esperar receber nada em troca (gratuito). Contudo, alguma recompensa acabamos por ter: ou simplesmente a de fazer o bem, ou alguma graça ou… o céu!
S.Paulo, em Rom.6, estabelece uma bela e profunda comparação entre a morte e ressurreição de Cristo e o nosso baptismo: assim como Jesus morreu, foi para debaixo da terra e depois de lá saíu para uma vida nova, também aquele que recebe o baptismo vai para debaixo de água (como que ‘morre’ afogado…) e depois vem para fora e volta a respirar ar puro e vive. Ser baptizado, ser cristão é, pois, nascer para uma vida nova, morrer para o homem velho e nascer para o homem novo, morrer para o pecado e nascer para a vida evangélica. Não esqueçamos nunca o que Jesus disse a Nicodemos (Jo.3): «Tens de nascer de novo, tens de nascer do Espírito».
No trecho do evangelho de hoje, para além das imagens concretas de que se pode revestir a hospitalidade para com os necessitados (por exemplo, dar a beber um simples copo de água…) – e isto é a continuação da temática da primeira leitura – , temos a afirmação clara e um ‘aviso’: quem segue Jesus, e porque se trata de algo muito sério, tem de o fazer com decisão! É verdade que, às vezes, nessa opção, se dá mesmo uma ruptura com a família de sangue, mas isso é mais uma metáfora daquilo que significa seguir a Jesus: há que ser coerente, em tudo, com a fé que se professa, com o evangelho – o que leva a opções e escolhas difíceis como o resistir às tentações do poder, das famas, dos egoísmos, do desinteresse e indiferença face aos outros, etc.
LIDERAR NÃO É SUBSTITUIR
1. Na Igreja actual, continua aberta a questão da sinodalidade, como regime da Igreja, que exige a colaboração de todos os baptizados: caminhar juntos na evangelização, a não confundir com a tentação do proselitismo. Foi a grande intuição do Papa Francisco, anunciada a 9 de Outubro de 2021.
A concretização deste caminho é exaltante, apresentada como Comunhão, Participação, Missão. É exaltante, mas também corre alguns riscos e o Papa apontou três.
O formalismo que pode reduzir um Sínodo a um evento extraordinário, mas de fachada, precisamente como se alguém ficasse a olhar a bela fachada duma igreja sem nunca entrar nela. Às vezes há algum elitismo na ordem presbiteral, que a separa dos leigos; e, no fim, o padre torna-se o «patrão da barraca» e não o pastor de toda uma Igreja que está a avançar. Isto requer a transformação de certas visões verticalizadas, distorcidas e parciais sobre a Igreja, o ministério presbiteral, o papel dos leigos, as responsabilidades eclesiais, as funções de governo, etc..
O intelectualismo que pode levar à abstracção: a realidade vai para um lado e nós, com as nossas reflexões, vamos para outro.
O imobilismo repete “fez-se sempre assim”. Esta expressão é um veneno na vida da Igreja. Para esta mentalidade é sempre preferível deixar as coisas como estão, não mudar. Quem se move neste horizonte, mesmo sem se dar conta, cai no erro de não levar a sério o tempo que vivemos. O risco é que, no fim, se adoptem soluções velhas para problemas novos: um remendo de pano cru, que acaba por criar um rasgão ainda maior (cf. Mt 9, 16).
Bergoglio lembra, neste discurso, a obra pioneira de Yves Congar, O.P., Verdadeira e falsa reforma na Igreja (1994)[1].
Entretanto, já foram realizadas duas Assembleias sinodais (2023 e 2024). Nos inícios de 2025, o Papa foi hospitalizado, mas este Pastor não abandonou o seu rebanho e continuou a trabalhar na programação do processo sinodal até 2028. Programação que temos até hoje. No dia de Páscoa, já com muita dificuldade, quis descer até à Praça de S. Pedro e abençoar as pessoas ali reunidas. Terminou o seu pontificado no final dessa noite.
Leão XIV continuou o programa sinodal, desenhado por Bergoglio, não tendo caído no risco do imobilismo, “sempre assim foi”. Tem demonstrado, numa forma original, que prossegue o caminho aberto por Francisco. Não esqueceu o grande lema de Santo Agostinho: Para vós sou bispo, convosco sou cristão. A verdadeira liderança, nas comunidades cristãs, não substitui ninguém, convoca e anima a caminhada de todos, todos, todos. Liderar não é substituir, é servir. Neste sentido, é que a Igreja pode ser uma luz para toda a sociedade.
2. Dispomos, como referências fundamentais, não apenas aquelas que existem para conhecer Jesus Cristo – os 4 Evangelhos – mas também o começo da história da Igreja nascente: os Actos dos Apóstolos e as Cartas, sobretudo Pedro e Paulo.
É atribuída a S. Lucas a brilhante primeira história da Igreja sinodal. «No meu primeiro livro, ó Teófilo, narrei as obras e os ensinamentos de Jesus, desde o princípio até ao dia em que, depois de ter dado, pelo Espírito Santo, as suas instruções aos Apóstolos que escolhera, foi arrebatado ao Céu»[2]. Mas não foi para férias divinas. Tornou-se imanente, foi e cumpriu a promessa.
Não é uma história apologética. Não oculta os conflitos. É uma visão realista dos acontecimentos, contando sempre com a força e clarividência do Espírito de Cristo. É frequente a expressão: disto somos testemunhas, nós e o Espírito de Deus.
Ficará para sempre como memória actuante da primeira comunidade dos discípulos de Jesus de Nazaré, o Cristo: A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma. Ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas entre eles tudo era comum. Não havia ninguém necessitado, pois todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas, traziam o produto da venda e depositavam-no aos pés dos Apóstolos. Distribuía-se, então, a cada um conforme a necessidade que tivesse[3].
Há a conversão de Paulo, um judeu perseguidor acérrimo dos adeptos do Caminho, que passa a discípulo destemido.
«Entretanto, os crentes tinham-se dispersado por causa da perseguição que começou com a morte de Estêvão. Uns foram até à Fenícia, Chipre e Antioquia e anunciavam a palavra de Deus só aos judeus. Outros, que eram de Chipre e de Cirene, foram até à cidade de Antioquia e ali pregavam também aos gregos anunciando-lhes a boa nova a respeito do Senhor Jesus. A mão do Senhor estava com eles e muita gente acreditou e se converteu.
Esta notícia chegou aos ouvidos dos crentes da igreja de Jerusalém que mandaram Barnabé a Antioquia. Quando ele lá chegou e viu os efeitos da graça de Deus ficou muito contente. E aconselhou todos a continuarem, com todo o coração, a serem fiéis ao Senhor. Barnabé era um homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé. Assim muita gente se converteu ao Senhor.
Barnabé foi depois à cidade de Tarso buscar Saulo [Paulo]. Quando o encontrou, levou-o para Antioquia. Estiveram ali durante um ano com os crentes daquela igreja e ensinavam muita gente. Foi em Antioquia que os discípulos foram pela primeira vez chamados cristãos[4].
Entretanto, o conflito entre os cristãos gregos e os de origem judaica aumentou e sentiram a necessidade de convocar um concílio sinodal em Jerusalém. Após grande debate entre as duas facções, Pedro levantou-se e disse: «Sabem muito bem, irmãos, que desde os primeiros dias Deus me escolheu de entre vós para que os não-judeus ouvissem da minha boca a palavra do evangelho, e também eles pudessem receber a fé. E Deus, que conhece o coração de todos, mostrou-se favorável para com eles dando-lhes o Espírito Santo, assim como o tinha dado a nós. E não distinguiu entre nós e eles, tendo pela fé purificado os seus corações. Agora, porque pondes Deus à prova, impondo um jugo aos discípulos que nem os nossos pais nem nós tivemos força para levar? Além disso, é pela graça do Senhor Jesus que acreditamos que seremos salvos, exactamente como eles. Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor outro jugo. Toda a assembleia ficou em silêncio e ouviram Barnabé e Paulo a descrever os milagres e prodígios que Deus realizara entre os pagãos, por intermédio deles[5].
3. Levaram Paulo para Atenas. Enquanto esperava os companheiros, indignava-se com o espectáculo desta cidade cheia de ídolos. Mas isto mesmo lhe serviu para anunciar Jesus Cristo, no Areópago: «Atenienses, vejo que sois, em tudo, os mais religiosos dos homens. Percorrendo a vossa cidade e examinando os vossos monumentos sagrados, até encontrei um altar com esta inscrição: Ao Deus desconhecido. Pois bem! Aquele que venerais sem o conhecer é esse que eu vos anuncio. É Nele, realmente, que vivemos, nos movemos e existimos, como também o disseram alguns dos vossos poetas. Somos todos da raça de Deus»[6].
Leão XIV não repete o passado e não esquece a história, para vivermos os desafios de hoje.
Fr. Bento Domingues in Público, 28/6/2026
[1] Discurso do Papa Francisco, 09.10.2021
[2] Act 1, 1-3
[3] Act 4, 32-37
[4] Act 11, 19-26
[5] Cf. Act 15
[6] Cf. Act 17, 22-34
Novo vídeo com o testemunho do Fr. José Nunes, OP nos 40 anos da presença dominicana em Angola (Waku-Kungo).