18 DE OUTUBRO - 29º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A
«Não há mal que sempre dure nem fome que não dê em fartura» - diz o nosso povo, e ainda bem que isto se passa muitas vezes! É o que se nos sugere na primeira leitura: o povo de Israel tinha sido levado, preso, para o exílio da Babilónia, ao fim de uns anos de cativeiro já desespera, mas eis que um rei da Pérsia (Ciro) vem subjugar o poder babilónico e vai dar a liberdade ao povo bíblico e permitir o seu regresso à Terra Prometida. Afinal, um rei estrangeiro, pagão, é o instrumento de Deus para fazer o bem e agir em favor do povo da aliança. Deus nunca se esquece das nossas misérias, Deus intervém na nossa história pessoal e/ou colectiva, e por vezes fá-lo de forma verdadeiramente surpreendente.
Na segunda leitura, Paulo regozija-se com as notícias que recebe da comunidade por ele fundada na cidade grega de Tessalónica. O apóstolo tinha lá pregado o evangelho em pouco tempo e receia da pouca preparação e capacidade de persistência da comunidade cristã. Mas, afinal, tem uma boa notícia: eles vivem com empenho na fé, numa caridade operante e através duma esperança inabalável. Eis as três grandes virtudes teologais naqueles cristãos… Que mais se poderia desejar?
«Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus» - eis a frase do evangelho que tantas vezes foi usada, tanto pela Igreja como pelos seus adversários, para dizer que a Igreja não se deve meter em política… Ora esta é, provavelmente, a frase mais política dos evangelhos (isto para além de ser uma resposta de uma enorme sabedoria, perante uma pergunta ‘armadilhada’ e bem difícil de contestar)!!! Jesus distingue entre César (que se considerava um deus e queria que o venerassem) e Deus, ou seja, César não é Deus! Experimentemos dizer isto a um qualquer ditador: «o senhor não é Deus»… talvez no momento seguinte estejamos a ser eliminados… Então daqui devíamos tirar, pelo menos, esta conclusão: não há nenhum chefe ou líder político, não há nenhuma ideologia ou partido político perfeitos; nada nem ninguém é perfeito, nada nem ninguém pode pensar que é Deus. Tudo na vida é relativo, tudo é criticável e superável, toda a realidade é para ser sempre e continuamente transformada num mundo mais ao gosto de Deus e dos homens.
NÃO VOS CONFORMEIS COM ESTE MUNDO
1. O imperativo que recebemos de S. Paulo, na Carta aos Romanos[1], é precisamente este: não vos conformeis com este mundo. O mundo está sempre em movimento, segundo os tempos e lugares. A teologia autêntica não pode ser conformista, é uma hermenêutica da esperança. Ao darmos razão da esperança, estamos a fazer verdadeira teologia. A esperança é um dom e um empenhamento. Esperar não é aguardar, supõe uma acção, uma nova criação[2].
Referindo-me apenas ao século XX, é preciso distinguir as suas realizações antes e depois do Vaticano II. Antes, foi uma actividade contrariada com normas e sansões a tal ponto, que os grandes teólogos, biblistas e movimentos litúrgicos criativos não se conformaram com essa falta de liberdade no interior da Igreja. Dir-se-á que a história das sansões romanas assumiram, depois do Vaticano II, uma direcção radicalmente diferente. Agora, é Roma que não pode aceitar organizações que pretendem paralisar as inovações da Igreja.
A obra de François Leprieur, Quand Rome condamne, é considerada exemplar para o que foi a Igreja antes do Vaticano II: «A tensão com Roma é vivenciada durante uma daquelas grandes crises que, nos seus momentos mais intensos, revelam tanto instituições quanto indivíduos. Trata-se de uma ruptura irreversível dentro da Igreja e da Ordem de São Domingos; um conflito de imensas consequências: a relação entre a Igreja e a classe trabalhadora. É impossível não se surpreender com o rigor e a rigidez implacáveis que Roma demonstrava em relação aos religiosos que se viam como missionários dos pobres». Já existem obras mais abrangentes. Isto testemunha o que era a vida dos teólogos e biblistas que não se conformavam com este mundo. Nessa altura, eram censurados pelo Vaticano. Agora, a criatividade é estimulada. O que terá acontecido para esta viragem?
João XXIII não se conformou com esta situação e convocou o Concílio Vaticano II (1962-1965). Como Núncio de França, tomou conhecimento da obra do teólogo dominicano francês Yves Congar, Verdadeira e falsa reforma na Igreja (Vraie et fausse réforme dans l'Église), 1950. Era o que ele desejava. Não admira que o tenha chamado para a preparação do Concílio. O grande historiador desse Concílio, o jesuíta John W. O'Malley afirmou: «Quando se consideram os escritos de Congar antes do Concílio e a sua influência em muitos dos documentos finais, ele deve ser classificado, na minha opinião, como o teólogo mais importante do concílio»[3].
2. Desarmar é a palavra chave do Papa Leão XIV. Tem precedentes que o grande jornalista António Marujo evoca entre outros, no seu artigo do Expresso (28.08.2026): o escritor J.R.R. Tolkien, o activista e pastor baptista Martin Luther King, a professora queniana Wangari Muta Maathai, primeira mulher africana a receber o Prémio Nóbel da Paz, a Madre Teresa de Calcutá, a pedagoga italiana Maria Montessori, Nelson Mandela e Óscar Romero, arcebispo de El Salvador, assassinado ao celebrar a Eucaristia. Contudo, recomendo esta leitura porque o artigo refere muitos outros nomes que marcaram a sua época, na linha de não se conformarem com o estado actual de guerra e seus genocídios.
Muitas outras figuras do século XX devem ser estudadas para serem verdadeiramente conhecidas. Um modo de conformismo é deixar o passado na ignorância, é conformar-se com esse esquecimento. As gerações que vêm, muitas vezes, sepultam as anteriores como se não fossem elas a nossa memória. A verdadeira tradição e a modernidade não se opõem.
O mundo bélico depende das grandes potências de destruição. Neste momento, o mundo do dinheiro recorre à guerra como um grande negócio. O que se gasta a matar dava para muitos milhões pobres, doentes e idosos abandonados viverem com dignidade. «Imaginemos um mundo em que as energias actualmente investidas na guerra fossem canalizadas para o desenvolvimento humano integral, a superação da pobreza, a proteção da dignidade humana e a reconciliação entre os povos. Tal visão reflecte a fé na vinda do Reino de Deus», como nos lembra Leão XIV[4].
É precisamente a atitude e a intervenção deste Papa que consegue enfrentar o presente inaceitável. Não se conforma com este mundo como está. Pela sua prática, mostra que é possível dar continuidade a quem nos antecede e simultaneamente trilhar o próprio caminho, estar preso a uma raiz e não deixar de ser livre, reconhecer o valor da tradição e mesmo assim ser profeta.
Em Lampedusa, teve uma expressão lapidar, precisamente a essência do cristianismo: Não há amor a Deus sem amor ao próximo, e não há próximo se eu não me aproximar.
É preciso desarmar a diplomacia da força, transformá-la em diplomacia do diálogo. Ele próprio não hesitou em afirmar que as políticas de imigração dos EUA vão contra os ensinamentos da Igreja. Tampouco se inibiu de condenar a diplomacia da força, após as operações militares na Venezuela e no Irão, defendendo o diálogo como o único caminho para a paz justa[5].
3. No termo do Concílio Vaticano II, a 16 de Novembro de 1965, foi redigido e assinado um documento, o Pacto das Catacumbas, por quarenta padres conciliares, entre eles muitos bispos latino-americanos e brasileiros. Não queriam deixar este concílio no passado, mas fazer dele um compromisso com o futuro. Este documento foi assinado após a Eucaristia na Catacumba de Domitila.
Os signatários comprometeram-se a levar uma vida de pobreza, rejeitar todos os símbolos ou privilégios do poder e a colocar os pobres no centro do seu ministério pastoral. Comprometeram-se também com a colegialidade, com a co-responsabilidade da Igreja como Povo de Deus, com a abertura ao mundo e ao acolhimento fraterno. Um dos proponentes do pacto foi Dom Hélder Câmara. Este pacto influenciou a nascente Teologia da Libertação e os rumos da Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, realizada em Medellín (Colômbia 1968).
Esta Conferência tornou-se a grande referência para o futuro de todas as Igrejas. O Papa Leão é a última expressão dessa caminhada.
Na sua Mensagem para o XI Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação (2026), assinala que «a promessa de paz, de Jesus Cristo, contrasta fortemente com as realidades que observamos em muitas partes do mundo. Já o profeta Isaías falou de um tempo em que as nações transformarão as suas espadas em relhas de arados (Is 2, 4), mudando aquilo que destrói a vida naquilo que a sustenta. Hoje, porém, testemunhamos com demasiada frequência exatamente o contrário, já que os esforços continuam a ser direccionados para a violência e a guerra».
Não nos podemos conformar com este mundo vergonhoso que destrói povos e o próprio planeta Terra. Temos de construir os caminhos de uma paz desarmada e desarmante.
Fr. Bento Domingues in Público, 13/9/2026
[1] Rm 12, 1-2
[2] Cf. Gustavo Gutiérrez, in Selecciones de teologia, 211 (2014 Vol. 53) p. 214; cf. Gonçalo Diniz, O clamor do não-homem, UCP 2020.
[3] John W. O’Malley, L’ événement Vatican II, tradução Francesa, Lessius, 2011
[4] Mensagem de Leão XIV para o XI Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, 2026
[5] Cf. 7Margens, 07.05.2026
Novo vídeo com o testemunho do Fr. José Nunes, OP nos 40 anos da presença dominicana em Angola (Waku-Kungo).