Home » Família Dominicana

Família Dominicana

Comentário às Leituras Dominicais (Set/2017) por fr. José Nunes, op

Comentário às Leituras Dominicais (Set/2017)         por fr. José Nunes, op - Instituto S. Tomás de Aquino

3 Setembro – 22º Dom. TC – A

 O profeta Jeremias foi seduzido por Deus para uma missão, ele mesmo se deixou seduzir, mas depois constatou que tal vida só lhe trouxe dissabores, dificuldades e desilusão. Então, maldiçoa a hora em que confiou em Deus e aceitou ser seu enviado. Contudo, sente uma força interior que lhe diz para persistir, ser forte e não abandonar tal missão… E não é esta a experiência que todos fazemos nas nossas vidas? A uns, Deus chamou para serem missionários; e se a sua vida é bela, não está também cheia de dificuldades? A outros, Deus chamou, simplesmente, a serem cristãos; e, no seu dia-a-dia, não encontram tantas pessoas que se riem da sua fé e escarnecem da Igreja? Ser cristão, muitas vezes, não é fácil; Deus também nos prometeu sucessos ou facilidades; mas também é verdade que interiormente sentimos que a verdadeira felicidade e a luz e sentido da vida se encontram no Evangelho de Jesus.

 A passagem da carta aos romanos que hoje lemos até parece uma passagem da carta aos hebreus: o que Deus nos pede é que nos entreguemos a nós mesmos no serviço e até sacrifício pelo bem dos outros, não que ofereçamos sacrifícios externos que não nos comprometem verdadeiramente a nós mesmos. Jesus também não foi sacerdote a viver no Templo oferecendo sacrifícios de animais: Ele ofereceu-se a Ele mesmo, Ele passou a vida a fazer o bem e a gastar-se (e desgastar-se!) no acolhimento e atendimento de tudo e todos. Esse é, aliás, o sentido do sacerdócio cristão.

 Os discípulos de Jesus tiveram muitas dificuldades em compreender o modo de ser do seu Mestre, o seu projecto de vida e muitas das suas palavras… Não entenderam algumas parábolas (como a do semeador), não entenderam algumas comparações (como a do Bom Pastor) e, sobretudo, não entenderam que Jesus era o Messias da paz e não da guerra, era o messias do serviço humilde e não do poder ou realeza terrenas. É exactamente isto que, no evangelho de hoje, Jesus quer converter e purificar na crença dos discípulos. E em seguida pede para todos eles renunciarem a si mesmos e darem a vida. De facto, ser cristão, ser discípulo de Jesus é renunciar a si mesmo, ou seja, é não viver auto-centrado, não se pôr a si mesmo ou olhar para si mesmo em primeiro lugar. Olhar, sim, para os outros e suas necessidades, perder a vida egoísta e encontrar profundo sentido de vida e verdadeira beleza na doação e entrega aos demais.

 

10 Setembro – 23º Dom. TC – A

 O profeta Ezequiel fala da parte de Deus algo de muito importante: somos responsáveis uns pelos outros! Não somo ilhas, vivemos em sociedade ou comunidade e havemos de cuidar uns dos outros. Portanto, sejamos solidários nos projectos dos outros, sejamos amigos sinceros nas suas dificuldades, façamos festa e regozijemo-nos nos seus êxitos e, sobretudo, corrijamos e chamemos a atenção quando andam perdidos e desorientados. Afinal, qual é o pai ou a mãe que não chama a atenção ao filho que anda em maus caminhos? Se o ama, corrige!

 No trecho de hoje da carta aos romanos, Paulo repete algo que Jesus falou e nos aparece nos evangelhos: só há verdadeiramente um mandamento, o mandamento do amor. Amor a Deus e ao próximo, nisso se resume toda a lei. O que faz lembrar a famosa frase de S.Agostinho: ama e faz o que quiseres. Mas vejamos a citação completa dessa reflexão daquele santo: «Ama e faz o que quiseres. De uma vez por todas, uma pequena regra é exigida de ti: ama e faz o que desejas. Se te calas, cala-te por amor. Se falas, fala por amor. Se corriges, corrige por amor. Se perdoas, perdoa por amor. Tem no teu coração a raiz do amor: desta raiz não pode sair senão o bem. Quem ama nunca faz o mal, e é para o bem que nascemos».

 O evangelho de Mateus fala-nos do perdão, da reconciliação e da correcção fraterna como formas de conseguir a harmonia na vida da comunidade – seja ela a Igreja em geral, a paróquia, a família ou o grupo de amigos ou do trabalho.

 De facto, na vida comunitária ou nas relações com os outros há problemas, tensões, rupturas. E então, aí, ninguém anda feliz nem se é exemplo para ninguém! A proposta cristã para tais situações é: reconciliação. A reconciliação opõe-se ao corte de relações com o outro, supera a denúncia ou murmuração do pecado dos outros e vai mais além da confissão pessoal do pecado. A reconciliação é o voltar à unidade, harmonia, comunhão, e isso é muito exigente: é necessário humildade confissão e perdão… é toda uma arte de ultrapassar os problemas! E, muitas vezes, há que ir ter com o outro para o corrigir. Não se trata de condenar, de destruir uma personalidade ou criticar gratuitamente: trata-se de, por amor, ganhar o outro para a verdade!

 

17 Setembro – 24º Dom. TC – A

 Na segunda leitura, com a qual hoje começamos esta meditação, S.Paulo esclarece-nos: o que importa é viver no Senhor! Ou seja, em qualquer circunstância há que procurar estar unido a Deus e viver do Espírito de Jesus ressuscitado. Trabalhemos mais fora ou mais em casa, tenhamos casado ou sejamos solteiros, tenhamos este ou aquele temperamento, professemos estas ou aquelas ideias… o importante é viver como cristãos em todas as situações! Curiosamente, Paulo já descobrira esta lição de vida na própria religiosidade pagã dos atenienses: em Deus «vivemos, nos movemos e existimos» (Act.17,28): com Deus tudo ganha outro e completo sentido.

 A primeira leitura e o evangelho estão muito sintonizados (o que, aliás, costuma acontecer): pedem o perdão, o não guardar rancor ou deixar-se dominar pela ira e desejo de vingança. Não se trata apenas de um conselho ou um piedoso moralismo; o perdão tem um fundamento teológico claro: Deus é misericordioso e perdoa. Por isso Jesus pediu para sermos misericordiosos como o Pai do Céu, tanto mais que Deus tem infinitamente mais a perdoar-nos do que nós uns aos outros... Mas, claro, o perdão tem um alcance antropológico e existencial muito forte. O papa Francisco, em palavras dirigidas às famílias (mas que podem ser aplicadas a todas as pessoas e grupos), em 28-12-2015, falou maravilhosamente desta realidade: «Não existe família perfeita. Não temos pais perfeitos, não somos perfeitos, não nos casamos com uma pessoa perfeita nem temos filhos perfeitos. Temos queixas uns dos outros. Decepcionamos uns aos outros. Por isso, não há casamento saudável nem família saudável sem o exercício do perdão. O perdão é vital para nossa saúde emocional e sobrevivência espiritual. Sem perdão a família se torna uma arena de conflitos e um reduto de mágoas. Sem perdão a família adoece. O perdão é a assepsia da alma, a faxina da mente e a alforria do coração. Quem não perdoa não tem paz na alma nem comunhão com Deus. A mágoa é um veneno que intoxica e mata. Guardar mágoa no coração é um gesto autodestrutivo. É autofagia. Quem não perdoa adoece física, emocional e espiritualmente. É por isso que a família precisa ser lugar de vida e não de morte; território de cura e não de adoecimento; palco de perdão e não de culpa. O perdão traz alegria onde a mágoa produziu tristeza; cura, onde a mágoa causou doença».

 

24 Setembro – 25º Dom. TC – A

 Escutamos hoje a clássica passagem de Isaías: os pensamentos de Deus não são como os nossos. Isto pode ser visto numa perspectiva negativa: somos diferentes de Deus, somos muito pecadores, somos mundanos e não divinos, somos capazes de muita maldade (guerras, injustiças, ódios, etc); mas também pode ser entendido de forma mais positiva: Deus é bom, não é como nós, não é mesquinho, não é vingativo, não castiga mas perdoa! Então, se bem que haja aqui um desafio a converter os nossos pensamentos (e acções), também há aqui motivo para regozijo: ainda bem que os pensamentos de Deus não são como os nossos… são infinitamente melhores e mais puros que os nossos!

 A afirmação de Paulo «para mim viver é Cristo e morrer é lucro» é a frase que está gravada no seu túmulo, em Roma. E são palavras que resumem toda a sua vida: ele desejava a vida eterna com Deus mas sabia que, para já, estava na terra para evangelizar e dar testemunho de Jesus.

 Quanto ao evangelho de hoje, parece que faz o elogio de uma injustiça: o dono da vinha paga o mesmo a quem trabalhou o dia todo e a quem só trabalhou uma hora ao fim do dia… Claro que esse proprietário representa Deus, e então parece que Deus não é justo! Ora aqui está a concretização do que dizia a primeira leitura de Isaías: Deus é bem diferente de nós…! Vejamos alguns possíveis ensinamentos da parábola:

- Se bem observarmos, Deus dá uma boa recompensa e bom pagamento a todos! Porque é que achamos que Deus não pode ser bom para com todos?

- Certamente que o texto do Evangelho foi escrito a pensar que os últimos a entrar na vinha são os últimos a entrar no Povo de Deus, ou seja, os pagãos, enquanto que os judeus já há muito faziam parte desse povo. Mas os judeus não têm que pensar ou sentir que têm mais direitos do que os outros. Do mesmo modo, hoje, os cristãos não têm que se achar com mais direitos que os pagãos, ateus ou membros de outras religiões: basta olhar para o nosso próprio compromisso e procurar ser santos, sem necessidade de nos compararmos com os outros.

- A vinha pode representar a Igreja. E na Igreja todos são chamados a «trabalhar», uns mais tempo e outros menos tempo… mas todos têm a mesma dignidade e todos são amados pela cabeça da Igreja que é Cristo.

- Quem trabalha mais tempo na vinha, afinal, acaba por ganhar mais do que quem trabalha menos: porque começou mais cedo, também disfrutou mais tempo da vida de amizade com Deus – esse é o maior prémio!

 

 

 

 

 

01/09/2017 observações (0)

Artigo do fr. Bento Domingues, op

Artigo do fr. Bento Domingues, op - Instituto S. Tomás de Aquino

Um Deus distraído?

1. Não têm conta as vezes que me fizeram, e fazem, a pergunta do título desta crónica. Sei que não tenho o exclusivo.

Não escondo que me divertem as pessoas religiosas e teólogas que dão a ideia — pelo que dizem e escrevem, pelo que aconselham ou mandam — que conhecem a vontade de Deus e os seus misteriosos caminhos. A tudo dizem: foi a vontade de Deus, mesmo quando essa expressão, pretensamente piedosa, é o pior insulto que Lhe podem fazer.

Por outro lado, são, por vezes, as mesmas pessoas que, pelas suas repetidas e abundantes orações, supõem que Deus ande mal-informado. As chamadas orações dos fiéis nas Celebrações Eucarísticas, mais ou menos gemidas, tentam lembrar a Jesus a sua responsabilidade pela péssima situação mundial.

Parece que todas as religiões, ou a maioria, têm fórmulas e livros de orações. Basta ir ao Google e, a partir da palavra oração, podemos ficar minimamente referenciados acerca desse mundo, ora sublime ora ridículo.

A nossa ligação fervorosa a Deus deveria estar atenta à nossa radical ignorância. Nunca me posso esquecer que S. Tomás de Aquino, depois de expor a sua epistemologia teológica e de apresentar as razões que tinha para afirmar que Deus existe, empenhou-se em mostrar, imediatamente, que não podemos saber como é Deus. A teologia dele é, sobretudo, uma luta contra as idolatrias que se insinuam em todas as atitudes e discursos religiosos.

Julgo que a religião — embora seja uma palavra de origem latina — nasce da consciência, mais ou menos explicita, do ser humano como realidade limitada. Precisa do outro para nascer, para crescer, para viver e para morrer. Não é auto-suficiente. É, por natureza, carente de cultura e de afectos. É uma realidade em permanente processo. Vai sendo através dos mil contactos cultivados ao longo da vida. É, estruturalmente, um ser aberto. Neste mundo multicultural e multirreligioso desenvolve-se bem ou mal, na recusa ou na aceitação. Quando se fecha aos outros, perde-se e afoga-se em si mesmo.

As boas relações humanas são as de acolhimento e cooperação. As más são as de dominação psicológica, económica, política e religiosa. Por isso, a pergunta mais sagrada, mais religiosa, em todas as situações, talvez seja esta: em que posso ajudar?

Não é por acaso que a primeira grande pergunta que Deus faz, logo no Génesis [1], seja esta: que fizeste ao teu irmão, e seja também a última que julgará a nossa história, segundo o Evangelho de S. Mateus [2].

Mas, então, devemos ou não rezar?

2. Não faltam, mesmo no Novo Testamento, recomendações de que devemos rezar sempre e em toda a parte. Não de qualquer maneira. Nem foi a primeira preocupação de Jesus. Consta, no Evangelho de S. Lucas, que os discípulos se sentiam um grupo um bocado abandonado, nesse aspecto. “Estando [Jesus] num certo lugar a rezar, ao terminar, um dos seus discípulos pediu-lhe: Senhor, ensina-nos a orar como João ensinou aos seus discípulos.” [3] Daí, resultou uma longa conversa e uma parábola que termina de forma paradoxal: a única coisa garantida é que o Pai dos Céus dará o seu Espírito aos que o pedirem. S. Mateus põe na boca de Jesus a recomendação: “Nas vossas orações não useis de vãs repetições, como fazem os gentios, porque entendem que é pelo palavreado excessivo que serão ouvidos. Não sejais como eles, porque o vosso Pai sabe do que tendes necessidade, antes de lho pedirdes.” De facto, deixou-nos apenas pistas muito gerais, no Pai-Nosso [4].

Estas indicações básicas atribuídas a Jesus deveriam merecer mais atenção. A Liturgia das Horas, rezadas em coro em muitas congregações religiosas, serve-se da recitação dos Salmos do Antigo Testamento. É precisa uma grande dose de paciência para aguentar a divisão entre o povo de Deus e os outros povos que não sabemos de quem são, geralmente inimigos. Esse Deus tem o encargo de defender e ajudar o seu povo e de atacar os outros povos. É um mundo pouco edificante de amigos e inimigos. É preciso, depois de Jesus Cristo, estar sempre a fazer descontos na oração.

Fazem parte de cenários em que se põe na boca do Senhor, Deus de Israel, uma narrativa na qual, depois de muitas bem-feitorias ao seu povo, que, finalmente, atravessou o Jordão e chegou a Jericó, faz esta declaração fantástica, coroa de muitas outras: “Combateram contra vós os que dominavam a cidade — os amorreus e os perezeus, os cananeus e os ititas, os girgasitas, os hevitas e os jebuseus — mas Eu entreguei-os nas vossas mãos. [...] Não foi com a vossa espada nem com o vosso arco que tudo isto foi feito. Dei-vos uma terra que não cultivastes, cidades que não construístes e onde agora habitais, vinhas e olivais que não plantastes e de que vos alimentais.” [5]

Pode um cristão rezar a um Deus destes?

3. Anda o Papa Francisco a dizer que não se pode matar em nome de Deus e, depois, louvá-Lo por ser um terrorista, porque eterno é o seu amor?

O diálogo inter-religioso, para não ser um teatro de mau-gosto, deve incluir a crítica das expressões religiosas que ofendem a Divindade maltratando os seres humanos.

Em Assis, já diversas vezes, os representantes de diferentes religiões foram rezar juntos. Nenhum tem o direito de criticar a forma de rezar dos outros, mas todos se deveriam sentir responsabilizados a contribuir, no âmbito da sua religião, para reverem as respectivas formas de rezar.

Por outro lado, se o ser humano é religioso pela interpretação que faz do seu limite, tem de cuidar de não transpor para Deus a sua responsabilidade. Quando se diz, de forma metafórica, que Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança, isso significa que o ser humano, por ser livre, é responsável pelo seu mundo, pela casa comum.

O Papa Francisco não se cansa de repetir que já estamos, de modo fragmentado, na terceira guerra mundial. Existem sistemas económicos que devem fazer a guerra para sobreviver. Ao fabricar e vender armas sacrificam, nos balanços económicos, o ser humano no altar do deus dinheiro.

Gosto da sua forma de rezar: Queridas irmãs e irmãos, eleva-se de todos os lugares da terra, de cada povo, de cada coração e dos movimentos populares, o grito da paz: guerra, nunca mais! [6]

Não é a um Deus distraído que ele reza. Reza para diminuir o mundo dos distraídos.

Fr. Bento Domingues                                                                           in Público, 24/9/2017

 

[1] Gn 4, 1-15
[2] Mt 25, 31-46
[3] Lc 11, 1-13
[4] Mt 6, 5-15
[5] Cf. Js 24, 1-13
[6] Politique et société, du Pape François (Rencontres avec Dominique Wolton), Editions de L’Observatoire/Humensis, 2017, p. 11.

24/09/2017 observações (0)

Clausura do Jubileu OP

Clausura do Jubileu OP - Instituto S. Tomás de Aquino
31/12/2016 observações (0)

Fotos Conferências Timothy Radcliffe

Fotos Conferências Timothy Radcliffe - Instituto S. Tomás de Aquino
29/01/2017 observações (0)

DOMINGOS, A Palavra da Alegria

DOMINGOS, A Palavra da Alegria - Instituto S. Tomás de Aquino

Texto de Maria Isabel de Mendonça Soares

Ilustrações de Mercês Gil

Edição do Secretariado Nacional do Rosário

01/11/2016 observações (1)