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Comentário às Leituras Dominicais (Out. 2026) por fr. José Nunes, op

Comentário às Leituras Dominicais (Out. 2026)      por fr. José Nunes, op - ISTA - Instituto S. Tomás de Aquino


25 DE OUTUBRO - 30º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A

 

Creio que se pode afirmar, honestamente, que a Bíblia é um livro verdadeiramente humanista. É certo que há passagens bíblicas de difícil enquadramento nesta perspectiva humanista (por exemplo, quando Deus é associado a violências, irados castigos ou aparentes e arbitrárias preferências de uns face a outros…) e, portanto, até de difícil aceitação por um cristão (que só tem a lei do amor); mas a Bíblia testemunha de uma progressiva (embora lenta e durando um milénio) purificação da compreensão e imagem de Deus e, quando chegamos ao Novo Testamento, o humanismo bíblico atinge o seu ponto mais alto, o seu climax. 

Mas já no Antigo Testamento temos maravilhosas passagens a testemunhar desse interesse pelo bem de toda a pessoa humana. No trecho que hoje lemos, do livro do Êxodo, aparece-nos a defesa dos fracos, dos órfãos, das viúvas, dos estrangeiros, dos pobres… Aparece também o apelo à solidariedade e generoso empréstimo ao necessitado (e sem juros). Israel tinha, de facto, inúmeras leis sociais, concretizadas em especial nas instituições do sábado, ano sabático e ano jubilar.

Uma vez mais, então, haveria que reconhecer no cristianismo uma religião com uma dimensão antropológica e uma responsabilidade social muito profundas. Ser amigo de Deus é ser amigo dos homens. E tudo isto decorre da lei do AMOR – único mandamento que Jesus nos deixou e nos é recordado no evangelho de hoje. Nas culturas pode haver muitas leis e tradições, na própria Igreja pode haver muitos mandamentos… Mas se alguém amar a Deus e ao próximo, certamente acertou no mais importante e do qual dependerá tudo o resto. Daí derivará, também, a importantíssima Doutrina Social da Igreja.

E foi isto que perceberam e assumiram os cristãos de Tessalónica – de que nos fala a segunda leitura. Eles tornaram-se imitadores de Cristo, eles construíram uma comunidade de vida no amor e, por isso, para além de experimentarem, eles próprios, a vida divina no amor, eram missionários dessa Boa Nova do amor, tornando-se exemplo para todos os demais. Porque se é certo que a evangelização carece do anúncio pela palavra profética, o testemunho de vida no amor, afinal, é o melhor e mais eficaz método missionário, a melhor forma de difundir o evangelho de Jesus.

 

 

 

 

 

 

23/10/2026 observações (0)

Artigo do fr. Bento Domingues, op

Artigo do fr. Bento Domingues, op - ISTA - Instituto S. Tomás de Aquino


A INGENUIDADE DA IGREJA

  

1. Qual é o contributo da Igreja para enfrentar os problemas mais gritantes do nosso tempo? A proposta dos “grandes” deste mundo é a conquista do poder ilimitado sem olhar a meios. A proposta de Leão XIV é a paz desarmada e desarmante. Nesta mesma linha, já Sophia de Mello Breyner pedia: "Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos / A paz sem vencedor e sem vencidos / Que o tempo que nos deste seja um novo / Recomeço de esperança e de justiça"[1].

João XXIII escreveu a Pacem in Terris; o Vaticano II tentou abrir a Igreja ao mundo contemporâneo, sabendo o seu desfasamento de séculos; Paulo VI disse na ONU, guerra nunca mais, e instituiu o Dia Mundial da Paz; Leão XIV tem a formulação mais lapidar: a paz desarmada e desarmante.

Era costume dizer, se queres a paz, prepara a guerra; o correcto é, se queres a paz, trabalha pela paz, trabalha pela justiça.

O Papa Francisco recorreu a Francisco de Assis para uma paz através de uma ecologia integral, condenando a economia que mata.

Leão XIV, na Magnifica Humanitas, lembra: «Quando São Paulo VI introduziu a expressão “civilização do amor”, o mundo estava marcado pela Guerra Fria, pela corrida ao armamento e por fortes desequilíbrios económicos. Naquele contexto, a Igreja apontava um caminho alternativo à oposição ideológica entre sistemas, imaginando uma ordem social em que a justiça e a caridade se entrelaçam e o amor se torna o princípio organizador da vida económica, política e cultural. Hoje devemos recuperar com firmeza esta visão: a civilização do amor não é uma utopia ingénua, mas um projecto exigente. Consiste na tradução da caridade em estruturas de justiça, em dar corpo institucional à fraternidade e em considerar o outro – seja ele uma pessoa ou um povo – como aliado necessário na construção do bem comum. Como nos recordou a Encíclica Fratelli tutti, só este amor social, capaz de se tornar cultura e norma, pode gerar uma ordem internacional estável, transformando a convivência de simples coexistência armada numa comunidade de destino»[2].

Faz parte da Igreja quem assumiu o baptismo como programa de vida toda, com a consciência de que muitos, que parecem estar dentro, estão fora, e outros, que parecem estar fora, estão dentro, como disse Santo Agostinho.

A convocatória para os trabalhos da transformação deste mundo é irrestrita. Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus (Mt 7, 21). Dirá alguém: Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras (Tg 2, 18).

Por outro lado, os cristãos invocam uma ambição extraordinária, ao rezar o Pai Nosso, resumo do Evangelho de Jesus Cristo: venha a nós o Vosso Reino, assim na terra como no céu. Certos movimentos foram acusados de querem fazer o céu na terra. Essa acusação é um elogio. É precisamente para fazer o céu na terra que existe o movimento cristão. Os recursos todos que existem no mundo davam para fazer deste mundo um céu e fizemos dele um inferno. Não basta repetir esta oração. Seria uma forma pecaminosa de adormecer as consciências.

2. Neste Domingo, encontramo-nos na passagem do judaísmo ao cristianismo. Constando que Jesus reduzira os saduceus ao silêncio, os fariseus aproveitaram esta situação para questionar a posição de Jesus, no seio do judaísmo. Um deles, que era legista, perguntou-lhe para o embaraçar: Mestre, qual é o maior mandamento da Lei? Jesus disse-lhe: Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente. Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas[3]. Esta última expressão é típica para marcar o que havia de melhor no judaísmo.

O Papa Leão XIV procurou transpor esta formulação do Antigo para o Novo Testamento. Coloca a sua versão no centro da fé cristã. Este centro pode ser formulado assim: o amor de Deus por nós implica o amor do próximo. O próximo, porém, não é apenas aqueles que nos são familiares ou com quem simpatizamos, mas aqueles de quem nos aproximamos sejam eles quais forem. É, por isso, que a nossa aproximação nos pode colocar perante a exigência de amar até os nossos inimigos. É universalista à imagem real do amor de Deus por nós.

Se o nosso próximo é aquele de quem nos aproximamos, isso implica também o perdão daqueles que nos ofenderam. Houve teólogos que disseram que o melhor dos nomes atribuídos a Deus é misericórdia. Acerca de Deus, porém, devemos ter consciência de que não pode haver um nome apropriado. Ele é o excesso, o transcendente. Por isso, a teologia deve procurar e mostrar sobretudo como Deus não é. Nós não sabemos como Deus é. Segundo a corrente do Pseudo Aeropagita, que influenciou toda a Idade Média, trata-se da teologia negativa ou apofática e na qual a teologia se torna explicitamente mística pela primeira vez na história[4].

3. Esta teologia mística não é irracional. Como diz de si próprio E. Schillebeeckx, «eu sou cem por cento racional. (…) Como crente, eu sou racional e procuro os argumentos racionais. Sinto-me assim um crente a cem por cento. (…) A racionalidade da fé deve ser sempre explorada e clarificada. Toda a minha teologia é a teologia de um crente. Fides quaerens intellectum. A razão humana deve ser plenamente usada no domínio da fé. Chamar à obediência e fechar os olhos não é cristão, não é católico. É necessário sermos crentes racionais. São Tomás é santo na racionalidade, porque empregou a razão para abordar a fé. A racionalidade é sempre mais necessária, sobretudo para reagir contra o fundamentalismo que mina cada vez mais as igrejas.

O Fundamentalismo, presente hoje também em certas comunidades cristãs, conduz ao obscurantismo. É um grave problema porque a razão humana é negada. É verdade que a razão humana não pode ser abandonada a si mesma, porque corre o risco de chegar a um positivismo. A fé preenche a função da crítica e de correctivo para que não se caia no racionalismo e que nos fechemos ao mistério que nos envolve. Sem a razão humana, a fé torna-se fundamentalismo. Ambas, a fé e a razão, preenchem a função de crítica recíproca»[5].

Apontamos o percurso de uma teologia para enfrentar as questões do nosso tempo. Com a Magnifica Humanitas, o actual Papa procurou inscrever o contributo da Igreja na era da Inteligência Artificial. Propõe uma gramática da responsabilidade e do diálogo. No centro permanece a pessoa, frágil e irredutível, convidada a não abdicar da sua vocação pensante e relacional.

Dir-se-á que as propostas da Igreja são ingénuas. Eu direi que são uma sabedoria. O que reina neste momento é a loucura!

 

Fr. Bento Domingues in Público, 25/10/2026 

_____________ 

[1] Cf. Manuel Pinto, Uma paz sem vencedores e sem vencidos, 7Margens 30.09.2025

[2] Magnifica Humanitas 186

[3] Mt 22, 34-40

[4] Da Teologia Mística, "uma obra breve, mas poderosa e influente, cf. Wikipédia

[5] E. Schillebeeckx, Sou um teólogo feliz, Biblioteca Dominicana, 2025, pp. 103-104

 

 

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