3 DE MAIO - 5º DOMINGO DA PÁSCOA - ANO A
O livro dos Actos dos Apóstolos, nos capítulos 2 e 4, fala de maneira elogiosa e idealizada de como era a vida da primitiva Igreja, a pequena comunidade de Jerusalém. Mas logo a seguir conta que também lá existiam problemas: no capítulo 5 fala-se de um caso de falta de solidariedade e partilha e agora, na leitura de hoje, do capítulo 6, fala-se de uma descriminação racial – as viúvas dos helenistas não eram atendidas na caridade, apenas o eram as viúvas judias. Mas os problemas existem… para serem resolvidos! E ali se escolheram sete diáconos para o serviço da caridade (do serviço das mesas). Quer dizer: para além dos dons do Espírito e seus carismas, que se transformas em serviços e ministérios eclesiais, as próprias necessidades das comunidades levam à criação de novos ministérios – o que é válido tanto para há dois mil anos como para os dias de hoje.
Da segunda leitura destacaria a afirmação de que os cristãos são uma raça eleita, uma nação santa, um povo sacerdotal. Fomos eleitos para o serviço de testemunhar o Evangelho (não para termos um privilégio de salvação face a outros não escolhidos e que estariam condenados); somos desafiados a uma vida santa, segundo a Boa Nova de Jesus; somos um sacerdócio real para nos colocarmos ao serviço uns dos outros, numa atitude descentrada e de atenção aos mais carenciados.
E o Evangelho de João começa por nos convidar à confiança em Deus, em cujo seio há muitas moradas. Primeiramente, isso significa que cada um de nós tem um lugar insubstituível no coração de Deus (até os cabelos da cabeça de cada um estão contados!). Depois, isso também significa que teremos um lugar junto de Deus na vida eterna (por isso mesmo, este texto é muito lido nas missas de funerais). Além disso, há muitos lugares/moradas na casa de Deus que é a Igreja; logo, cada um tem o seu lugar próprio de participação na vida da comunidade, podendo e devendo assumir algum serviço ou ministério.
Em seguida, o trecho do evangelho de hoje também traz a famosa afirmação de que Jesus é o caminho, a verdade e a vida. E porquê? Porque Ele é que viveu a vida verdadeira, a vida autêntica, com sentido. E qual foi essa vida? Foi a vida de amor e serviço aos outros. Quem vive assim, não morre. A sua vida é divina, é eterna.
MEMORIAL DESTA PÁSCOA
1. Continuamos a celebrar o tempo pascal. Como já escrevi, nestas crónicas, todos os Domingos deveriam ser pascais, afectando todos os dias da semana. De forma muito solene, «todos os anos, relembra-se a paixão e a ressurreição de Jesus como algo que está a acontecer dentro de cada pessoa, em tempo real», como disse Frederico Lourenço, em entrevista à Ecclesia (05/04/2026). As celebrações da fé cristã não podem ser indiferentes aos acontecimentos contemporâneos das sociedades.
Os meios de comunicação social têm revelado a brutalidade das guerras. O Papa Francisco já tinha alertado o mundo de que estávamos a viver uma terceira guerra mundial aos pedaços. Os acontecimentos deste tempo pascal mostram que já estamos em guerras que tocam o mundo inteiro.
António Barreto, colunista do Público, sintetizou a situação mundial em que nos encontramos: «Sabemos que os próximos tempos vão ser difíceis. A situação na Europa, no Próximo Oriente, na Ucrânia e na Rússia, para já não falar da África, é de horror e terror. Economias de rastos. Custo de vida explosivo. Os piores conflitos armados desde há décadas. As duas grandes potências militares, Estados Unidos e Rússia, envolvidas em terríveis guerras. Crise de energia sem dúvida. Crise nas bolsas, no comércio e nos transportes internacionais. Fome e guerra civil em África. Movimentos militares em vários continentes. Há muitas décadas que não se via nada parecido».
Para conhecer a polémica entre Trump e o Papa Leão XIV pode ler também, no Público (13.04.2026), a notícia: Trump diz que Papa é “péssimo” e Leão XIV promete continuar a defender a paz.
Leão XIV, que ressalvou não querer entrar em debate com o Presidente dos EUA, não se coibiu de condenar a forma como “a mensagem do Evangelho” está a ser “tratada de forma abusiva”. E garantiu que se continuará a “manifestar veementemente contra a guerra, procurando promover a paz, o diálogo e as relações multilaterais entre os Estados, para encontrar soluções justas para os problemas”.
“Há demasiadas pessoas a sofrer no mundo de hoje, demasiadas pessoas inocentes estão a ser mortas. E acho que alguém tem de se levantar e dizer que há uma maneira melhor. A mensagem da Igreja, a minha mensagem, a mensagem do Evangelho: bem-aventurados os pacificadores”, declarou.
O arcebispo de Washington, cardeal Robert McElroy, manifestou que, neste momento crítico, «como discípulos de Jesus Cristo chamados a ser pacificadores no mundo, devemos responder em voz alta e em uníssono: Não. Não em nosso nome. Não neste momento. Não com o nosso país».
É neste mundo que nos cabe dar testemunho da fé cristã. Infelizmente, a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) perdeu-se, ao não se confrontar com os meios de comunicação sobre as vítimas de abusos sexuais e não só, antes de tomar decisões que considera irreversíveis. Agora, não se pode queixar da liberdade de quem comenta e contesta essas decisões. O poder exclusivo de uma instituição, como a CEP, mostra-nos que esse é o caminho da perdição. Não foi um bom serviço que prestou à vocação da Igreja que existe para ajudar todas as pessoas, sobretudo as mais afectadas por comportamentos vergonhosos, dentro e fora da Igreja.
2. Não podemos ficar colados aos tristes comportamentos que ofendem o sentido cristão da Páscoa. O próprio do cristianismo é um processo de conversão permanente, a nível individual e comunitário, de conversão aos caminhos da alegria. Nietzsche dizia que os cristãos estavam sempre em sexta-feira santa. Esquecia que também esse dia é por causa da nossa alegria, da nossa libertação. A tristeza não pode ser celebrada.
O antropólogo e músico, Alfredo Teixeira, que tem musicado vários poemas de José Augusto Mourão, O.P. (1947-2011), nesta Páscoa, publicou, no 7Margens, um texto construído com essa singular poesia. Deixo, aqui, extractos desse poema pascal.
Não pode a morte reter-me na cruz / Não pode o mundo arrancar-me à raiz. / Não poderá corromper-se a alegria / Não pode o fogo extinguir-se no céu. / Não pode a morte apagar o desejo / De ver a Deus face a face e viver. / A Deus busquei toda a vida e vivi / De acreditar no infinito da vida. / Já ouço a voz do Senhor Deus dos vivos / Já ouço a voz do amigo que vem.
«A esperança cristã não se constrói no exílio da experiência do mundo, mas por meio dela, afinando a escuta para os sons que não se impõem pela evidência. A linguagem da amizade corrige a tentação de imaginar Deus como distância absoluta».
3. A arte de entrosar o passado e o presente foi-nos oferecida, de forma divertida, pelo evangelista S. Lucas[1]. Escreveu um conto – os Discípulos de Emaús – como se fosse acerca do passado para dizer o que sempre acontece numa verdadeira comunidade cristã. Imaginou dois dos discípulos, tristes e desiludidos pelo que aconteceu ao seu Mestre e sem esperança na ressurreição prometida. O interessante do conto é que o próprio Jesus entrou no grupo e na discussão do que tinha sido o seu julgamento. Eles estranham a ignorância e a distracção deste forasteiro e explicaram-lhe, com todos os pormenores, o que lhe tinha acontecido. Este mostra-se muito interessado. Acabam por acrescentar: é verdade que algumas mulheres, que são dos nossos, nos assustaram; foram ao sepulcro e vieram dizer que tiveram umas visões e que Ele está vivo. Os homens verificaram a narrativa das mulheres, mas não O viram.
Aí, o forasteiro explicou-lhes que não estavam a entender o que tinha acontecido. Não se dá por achado e explicou-lhes, a partir das Escrituras, o que a esse estranho personagem dizia respeito. Estando os discípulos perto da aldeia para onde iam, Jesus fez de conta que seguia viagem. Pediram-lhe para ficar com eles, pois já era tarde. Ficou e tomou conta da casa e da mesa. Tomou o pão partiu-o, distribuiu-o e deixaram de O ver. O espanto: enquanto O viram, não O viram. Quando O não viram, reconheceram-no no gesto eucarístico, ao partir o pão.
Este é um verdadeiro conto exemplar. Jesus Cristo é o clandestino da vida humana. Não damos por Ele, mas Ele anda sempre connosco. A celebração da Eucaristia implica uma ponte entre o quotidiano e a celebração. Mas sem o acolhimento do desconhecido não acontece nada. Certamente que Jesus não tinha uma forma especial de partir pão. Mas é Ele que é o pão da vida. A celebração semanal da Eucaristia serve para não perder a memória de Jesus, a transformação do presente e a abertura à esperança.
Pertence ao memorial desta Páscoa o grande livro de Miguel Oliveira da Silva[2]. A Páscoa em andamento, a Páscoa que tem futuro, é a do Papa Leão XIV, em missão pela África explorada. Bendita a hora em que foi eleito!
Fr. Bento Domingues in Público, 19/4/2026
Novo vídeo com o testemunho do Fr. José Nunes, OP nos 40 anos da presença dominicana em Angola (Waku-Kungo).