12 DE JULHO - 15º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A
Outro texto clássico do profeta Isaías: a palavra que sai da boca de Deus não regressa a Ele sem ter produzido o(s) seu(s) efeito(s)! De facto, a Palavra de Deus é para valer. As palavras dos seres humanos, como diz o povo, «leva-as o vento»… São as palavras dos políticos nas promessas, dos amantes nas juras de amor, etc… Deus fala e cumpre. Por isso, em Deus podemos e devemos confiar. As suas palavras são vida verdadeira e são eternas.
E também as palavras de Paulo, hoje, constituem uma das passagens mais emblemáticas dos seus escritos: nós, por enquanto, como toda a criação, ainda «gememos as dores do parto». Faz lembrar um pouco aquele versículo da oração da Salvé Rainha que diz: «a Vós suspiramos, gemendo e chorando, neste vale de lágrimas». E estas afirmações, mais do que pessimismo, visão trágica ou manifestação de uma situação depressiva, são uma constatação realista. A vida, convenhamos, nem sempre é um mar de rosas e está pejada de sofrimentos e inquietações. Mas estas afirmações de S.Paulo são apenas o início de um maravilhoso hino e convite à esperança! Esperança que está alicerçada na fé: acreditamos num Deus bom, que tudo criou, nos deu a vida, nos salvou, salva e salvará. De resto, a esperança é mesmo uma questão de sobrevivência (nesse sentido, portanto, também para os não crentes): é ela que nos mantém de pé, é ela que nos faz lutar e acreditar numa outra e melhor vida. Afinal, como diz a sabedoria do povo: «quem não espera, desespera»!
O evangelho de Mateus propõe-nos a parábola do semeador. A qual é mesmo objecto de uma interpretação ou explicação por parte de Jesus. Assim, o semeador é Jesus e a semente é a Palavra de Deus, lembrando-nos que também nós somos chamados a semear essa Palavra (como dizem uns teólogos franceses: somos convidados a ser «passadores de Evangelho»). Também a parábola nos recorda que a semente é frágil e o anúncio do Reino nem sempre é fácil ou tem os resultados esperados. Mas, para além de tudo isso, creio que o texto nos coloca esta questão: em que terrenos nos colocámos e vivemos? Isto é, há terrenos que não dão fruto! Por mais que nos esforcemos, por mais boa vontade que tenhamos, há terrenos que não produzem. Imaginemos alguém que se colocou numa vida viciada de bebida ou de jogo ou de droga; até pode ter alguma consciência do erro que cometeu e das contradições em que está envolvido… mas enquanto não mudar de «terreno» não lhe adiantarão muito algumas boas intenções que possa ter! Somos todos intimados, pois, a (re)pensar em que terrenos nos colocámos e costumamos frequentar/viver.
AS PAIXÕES QUE AGITAM A IGREJA
1. Foi precisamente em Lampedusa que o Papa Francisco realizou, há 13 anos, a sua primeira visita pastoral fora de Roma, escolhendo um lugar situado nas periferias da Europa para denunciar a tragédia das migrações e lançar um dos conceitos que marcou todo o seu pontificado: a globalização da indiferença.
Treze anos depois, o Papa Leão XIV foi a esta ilha italiana onde, desde há anos, chegam vivos e mortos dezenas de milhares de migrantes na esperança de encontrarem uma porta para a Europa. Hoje como ontem o mesmo drama. O Mediterrâneo transformou-se num grande cemitério sem lápides.
Em Lampedusa, Leão XIV marcou a essência do cristianismo: Não há amor a Deus sem amor ao próximo e não há próximo se eu não me aproximar[1]. Temos de trabalhar, de lutar e rezar para que os migrantes deixem de ser estranhos e passem a fazer parte da nossa sociedade, como diz Pedro Góis[2].
Estas iniciativas são próprias de uma Igreja de saída para as periferias, para todas as periferias existenciais. É uma expressão do Papa Francisco que Leão XIV adoptou.
Uma periferia, no interior da Igreja, que é preciso vencer sãos as próprias mulheres. Há uma questão que incomoda a teóloga Sónia Monteiro: Qual o papel das mulheres na Igreja? Na situação actual, devemos fazer a pergunta ao contrário: Qual o papel do homem na Igreja? Não há um baptismo para homens e outro diferente para mulheres! A palavra homem, sem o pretender, é uma expressão de exclusão. Nas celebrações litúrgicas, é valorizado Deus e os homens. Não é Deus e as mulheres, quando são elas a maioria.
Como os padres foram formados por homens é difícil usar a expressão sinodal: mulheres e homens. A tarefa que Sónia Monteiro propõe é desmasculinizar a Igreja que exige uma mudança não só nas estruturas, mas também nas comunidades e na formação dos presbíteros[3]. Não podemos cair no sempre assim foi, denunciado por Francisco e recusado por Leão XIV.
No entender do jornalista José Manuel Vidal, «o clericalismo não é apenas um vício moral. É também uma heresia eclesiológica. E o púlpito fechado aos leigos é o seu monumento mais visível». Não se percebe a determinação que nega a possibilidade de homilias feitas por leigos/as. O desejável é a multiplicação de pessoas cristãs, não só consumidoras, mas testemunhas anunciadoras do Evangelho. A teologia não é um luxo. Segundo S. Pedro, é uma obrigação: estai sempre prontos a dar razão da vossa esperança, sem arrogância.
2. Não basta insistir no que ainda não existe e esquecer o que está a ferver em muitos aspectos da vida da Igreja. O próprio Vaticano já nomeou várias mulheres para cargos de responsabilidade. Refiro alguns casos exemplares, correndo o risco de pensar só nessas mulheres e não nas que, efectivamente, mantêm viva a chama das igrejas locais: Maria Montserrat Alvarado (comunicações – primeira leiga), Simona Brambilla e Tiziana Merletti (Discatério da Vida Consagrada), Raffaella Petrini (Governatorato do Estado da Cidade do Vaticano), Nathalie Becquart (Sínodo dos Bispos), Alessandra Smerilli (Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral) e Cristiane Murray (Sala de Imprensa do Vaticano).
Mais importante ainda seria descobrir o que está a acontecer nos movimentos, paróquias e dioceses. O Sínodo já percorreu várias etapas, mas seria interessante saber o que escandalosamente não agita as comunidades, não caminha junto, resistindo à mudança. Como diz o escritor Stephen R. Covey, «a maioria de nós não escuta com a intenção de entender. Ouvimos com a intenção de responder».
No momento em que o Vaticano reuniu budistas, cristãos, hindus e sikhs, num diálogo inter-religioso em nome da fraternidade universal (30.06.2026), o grupo lefebvrista optou por ignorar essa enorme realidade e voltar-se para o passado como estátuas de sal.
No próximo mês de Outubro, Leão XIV vai encontrar-se com os Chefes das Igrejas Orientais e os Presidentes das Conferências Episcopais, assinalando os dez anos de Amoris Laetitia, a Alegria do Amor. O ponto de partida do encontro é um olhar sobre a realidade iluminado pelo Evangelho e enraizado em Cristo: «Ainda mais do que há dez anos, o nosso tempo é marcado por rápidas transformações que exigem uma especial atenção pastoral às famílias, às quais o Senhor confia a tarefa de participar na missão da Igreja de proclamar e testemunhar o Evangelho»[4]. As famílias devem ser a grande paixão da Igreja, pois são elas a fonte universal da vida humana.
3. A mãe da grande escritora, Lídia Jorge, pediu-lhe que escrevesse um livro com o título Misericórdia e, na última vez que se viram, insistiu com a filha, «para que as pessoas sentissem compaixão umas das outras». Perante esta insistência, escreveu o romance Misericórdia, sobre Deus e as feridas do mundo, que lhe deu o Prémio Camões 2026. Este romance nasceu no interior da família.
O fenómeno da terceira guerra mundial aos pedaços é, precisamente, a negação da compaixão, é um fenómeno de destruição mútua. O pensamento dominante, na actualidade, parece ser o de encontrar a forma de destruir o outro, pela economia que mata, pelo comércio bélico, pelo tráfico de pessoas.
O Papa Leão XIV está num tempo de férias em Castel Gandolfo e escolheu a companhia de cerca de 200 pessoas, em situação de vulnerabilidade social da Diocese de Roma, para almoçar no dia 11. Este gesto diz-nos que o tempo de férias não pode ser o tempo do esquecimento dos pobres.
Não há amor a Deus sem amor ao próximo e não há próximo se eu não me aproximar.
Fr. Bento Domingues in Público, 12/7/2026
[1] Cf. Jorge Wemans, 7Margens, 04.07.2026
[2] Cf. Entrevista de Tiago Dias a Pedro Góis, 7Margens, 27.06.2026
[3] Cf. Rede Sinodal em Portugal, 7Margens, 29.06.2026
[4] Cf. www.vatican.va
Novo vídeo com o testemunho do Fr. José Nunes, OP nos 40 anos da presença dominicana em Angola (Waku-Kungo).