12 DE ABRIL - 2º DOMINGO DA PÁSCOA - ANO A
Depois da morte e ressurreição de Jesus, os seus discípulos, em Jerusalém, procuraram começar um novo modo de viver, em comunidade, e isso é descrito de forma muito idealizada pelo livro dos Actos dos Apóstolos (tanto no final do capítulo 2 como no final do capítulo 4). É verdade que, mais tarde, vão aparecer problemas dentro da comunidade, mas o importante a reter é isto: quem recebe o Espírito Santo e é baptizado passa a ter uma vida nova – numa comunidade, com relações fraternas, oração em comum, aprofundamento da fé, celebração da eucaristia (é o que significa «fracção do pão»), partilha solidária dos bens materiais. E este programa da Igreja de Jerusalém é bem o exemplo para o que todas as comunidades eclesiais, em todos os tempos e lugares, são chamadas a viver.
Na segunda leitura, Pedro começa por nos afiançar que a ressurreição de Jesus nos devolve a esperança para a vida. E isto, claro, por vários motivos: porque indica que o nosso destino é também a ressurreição e a vida eterna com Deus, porque nos traz sentido para o que vivemos, porque nos diz que todas as tristezas, sofrimentos e mortes que experimentamos não são a última palavra! A derradeira palavra é de Deus que nos dá e dará a vida.
O evangelho de João narra alguma das primeiras aparições do ressuscitado, incluindo o famoso episódio de Tomé (primeiro ausente, depois já reunido com a comunidade). Desde logo há aqui uma catequese dominical (como lembrou muito bem J.Paulo II, na Dies Domini nº20): é importante estar com a comunidade ao domingo («o primeiro dia da semana»), quando esta se reúne. A fé não é passível de ser vivida apenas em privado, individualmente, e quem se afasta da comunidade (como Tomé…) começa a duvidar e deixa de acreditar!
Mas o texto evangélico tem muitos mais e ricos ensinamentos! Por exemplo: Tomé também deve ser olhado de forma positiva, como um verdadeiro protótipo de todo o cristão. De facto, ele precisou de fazer a experiência de Jesus para acreditar, precisou de «ver para crer», e isso é o que todos teremos de fazer alguma vez na vida! Sem fazer a experiência forte e concreta de Deus presente nas nossas vidas, a nossa fé acabará por sucumbir, pois será algo de teórico, abstrato e baseado apenas no que outros nos transmitiram. Por outro lado, somos desafiados a acreditar em Deus mesmo quando não O vemos como queríamos ver, mesmo quando tudo corre mal, mesmo quando parece que Ele nos abandonou: «felizes os que acreditam sem terem visto».
MISTÉRIOS DA PÁSCOA
1. Páscoa, em hebraico, diz-se Pessach que significa passagem. Refere-se à chamada libertação dos israelitas da escravidão no Egipto. Continua a significar a passagem da escravidão para a liberdade.
Segundo os textos do Novo Testamento, vivemos de uma referência fundamental que é Jesus, o Cristo. O que lhe aconteceu foi organizado, sob o ponto de vista litúrgico, na chamada Semana Santa. Começa com o Domingo de Ramos. Quinta, Sexta e Sábado constituem o Tríduo Pascal, o tempo mais intenso da semana.
Não se deve confundir o fim de semana laico que, agora, envolve sábado e Domingo. Nessa perspectiva, o começo da semana é segunda-feira. Do ponto de vista cristão, Domingo é o primeiro dia da semana, dia do Senhor, a Páscoa semanal.
A Páscoa ritual teve evoluções muito diferentes de local para local. O que importa é perceber o sentido desse ritual. Segundo o Evangelho de S. João, durante a Ceia, Jesus levantou-se, tomou uma toalha e lavou os pés aos discípulos. Depois, voltou à mesa[1]. Com este gesto, dava uma resposta radical à discussão entre eles: quem seria o maior?. Eles não entenderam. Precisaram de uma conversão radical. A Igreja só pode ser fiel, vivendo em permanente conversão ao serviço dos mais abandonados. Passaram 2 000 anos. É misterioso que os seres humanos gastem na guerra o que deveria ser gasto na promoção da paz, na fraternidade universal.
As mulheres entraram muito cedo e de vários modos na vida de Jesus de Nazaré. Hoje, é quase impossível imaginar a importância desse fenómeno. Seria necessário estudar o lugar da mulher na cultura religiosa do tempo de Jesus, para perceber o alcance da revolução que ele desencadeou. Vivemos numa época na qual a mulher tem um papel cada vez mais activo na vida e na liderança das sociedades, mas a sua situação na Igreja é um anacronismo que, esperamos, os anos se encarregarão de vencer.
De facto, a situação do estatuto da mulher, ainda tem muitas lacunas, mas segundo notícias recentes cresce, cada vez mais, na Europa, e nomeadamente em Portugal, o número de mulheres cientistas e engenheiras[2]. É importante que, na Igreja, não se esqueça este fenómeno, para não negar a sua mais antiga tradição: «todos vós sois filhos de Deus em Cristo Jesus, mediante a fé; pois todos os que fostes baptizados em Cristo, revestistes-vos de Cristo mediante a fé. Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus»[3].
É verdade que também a exegese feminista conquistou, no âmbito das abordagens contextuais, um lugar, ainda não ao sol, mas à sombra, no documento da Comissão Pontifícia Bíblica de 1993, (A interpretação da Bíblia na Igreja).
O que espanta é a lentidão em reconhecer o que parece claro no Novo Testamento e que, ainda hoje, muitos não querem ver o que estão a ver, devido à resistência de uma cultura secular “antifeminista” que nos torna cegos.
No Evangelho de S. Lucas[4], depois da cena escandalosa da mulher que surpreendeu, tocou e beijou Jesus, na casa de um fariseu, onde ele estava a jantar – e para onde ela não tinha sido convidada –, são as mulheres que surgem em grupo, de uma forma estranha e ambígua. Vale a pena transcrever o texto: depois disso, ele andava por cidades e aldeias, pregando e anunciando a boa nova do reino de Deus. Os Doze acompanhavam-no, assim como algumas mulheres: Maria, chamada Madalena, Joana, mulher de Cuza, o procurador de Herodes, Suzana e várias outras, que os serviam com os seus bens. Iremos encontrá-las depois da Ressurreição dedicadas a converter, muito a custo, os Apóstolos que lhes não davam crédito[5]. São elas as mulheres da Páscoa cristã.
O grande historiador judeu, Flávio Josefo, nas Antiguidades Judaicas, afirma, por duas vezes, que «o testemunho das mulheres não deve ser aceite por causa da fragilidade e presunção do seu sexo». Noutra passagem, com outras palavras, repete a mesma ideia: «das mulheres não se pode aceitar nada como certo, por causa da ligeireza e temeridade do seu sexo».
2. Um outro judeu, Jesus de Nazaré, parece que estava apostado em atirar pelos ares, costumes e ideias, que perpetuavam a marginalização do testemunho das mulheres. A opção deste Nazareno era de um atrevimento escandaloso, ao fazer delas testemunhas da sua Vida, da sua Paixão, da Ressurreição e do Pentecostes.
É certo que começam a aparecer, no Evangelho de S. Lucas, em grupo, mas de uma forma sorrateira e como que, apenas, financiadoras do novo projecto. Dá a ideia de que foram conquistando terreno até ao momento extremo de tornarem o futuro do movimento cristão dependente delas. Não me parece nada que tenha sido assim, embora não tenha espaço para o demonstrar.
As narrativas do Novo Testamento, aquilo a que chamamos os Evangelhos, são fruto de várias tradições, de várias comunidades, de tempos e culturas diferentes. O que espanta é que sendo textos escritos por homens, também eles marcados pela mentalidade reflectida por Flávio Josefo, os seus escritos testemunham uma presença impressionante de mulheres em torno de Jesus e nas Igrejas nascentes.
Podemos e devemos imaginar é o que deve ter sido a presença activa das mulheres, em todo o percurso de Jesus, para ter resistido ao aperto cultural e religioso do seu tempo.
3. Pertence aos exegetas bíblicos[6] continuar a analisar, com todos os métodos de que dispõem, as narrativas sobre o túmulo vazio e as aparições do Ressuscitado. Essas narrativas coincidem em algo essencial: A morte não saiu vencedora. Jesus está vivo e para sempre; é o mesmo, embora já não da mesma maneira. Aos discípulos/as pede que sejam testemunhas dessa esperança, essa memória de futuro.
Não se trata de nada que se possa provar por qualquer das ciências que existem. É de outra ordem. A fé, como diz o filósofo Wittengstein, é fé naquilo de que necessita o meu coração, a minha alma e não a minha inteligência especulativa. Pois é a minha alma com as suas paixões, por assim dizer, com a sua carne e sangue, que tem de ser salva e não a minha razão abstrata. Só o amor pode acreditar na Ressurreição.
O espantoso capítulo 20 do Evangelho de S. João conta que uma mulher, Madalena, liberta e apaixonada, não largou Jesus nem na vida, nem no vazio da morte, nem no túmulo. Continuou a procurá-lo. Não o encontrou, mas foi encontrada por Aquele que sabia o seu nome. A sua recompensa foram novos trabalhos, uma encomenda directa do Ressuscitado: «vai a meus irmãos e diz-lhes: subo a meu Pai e vosso Pai, a meu Deus e vosso Deus».
Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: vi o Senhor e as coisas que Ele lhe disse.
Porque impedir as mulheres da Páscoa de realizarem a sua missão apostólica na vida da Igreja ao serviço da transformação do mundo?
Que a celebração da Ressurreição de Cristo nos ajude a procurar os bons caminhos para vencer as raízes dos ódios que ensanguentam a terra.
Fr. Bento Domingues in Público, 5/4/2026
Novo vídeo com o testemunho do Fr. José Nunes, OP nos 40 anos da presença dominicana em Angola (Waku-Kungo).