5 DE JULHO - 14º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A
O profeta Zacarias anuncia algo que virá a cumprir-se plenamente com Jesus: Deus enviará alguém para salvar todos os povos («anunciará a paz às nações… o seu domínio irá até aos confins da terra») e Ele aparecerá «humildemente montado num jumentinho». De facto, quando Jesus entra em Jerusalém, aclamados pelas multidões com gritos de ‘hosana’, Ele vai montado num jumentinho; e Ele veio também, de facto, como salvador universal proclamando bem-aventurados os pacíficos e pacificadores onde quer que vivam e donde quer que sejam originários. É verdade que o povo judeu esperou sempre, preferentemente, um outro tipo de enviado de Deus, um outro género de Messias: guerreiro, chefe político-militar, impondo-se pela força. Mas foi o profeta Zacarias quem ‘acertou’ na previsão…! Ele é que anunciou, inspirado por Deus, o salvador pacífico que veio a ser Jesus.
No trecho da carta aos Romanos que hoje nos apresenta a liturgia, temos um vez mais uma das grandes intuições de S.Paulo: o Espírito de Deus habita em nós, nós somos o ‘templo’ ou a ‘casa’ onde mora o Espírito Santo. E, sendo assim, toda a nossa vida, os nossos desejos, os nossos pensamentos, os nossos gestos, as nossas acções, as nossas palavras, os nossos comportamentos, enfim, tudo em nós deveria ser obra do Espírito, deveríamos deixar que fosse esse princípio divino que está em nós a comandar, inspirar e orientar toda a nossa vida. Numa palavra: viver segundo o Espírito e não segundo a carne! O que, evidentemente, não significa adopção do princípio dualista que afirma a bondade do espiritual e a maldade do material: apenas significa a opção pelos valores evangélicos e não os valores mundanos.
Na continuação da primeira leitura, também o evangelho nos desvenda mais um pouco o personagem do Messias, do enviado de Deus: Jesus veio para salvar e não condenar, veio para aliviar e não ser pesado, veio para libertar e não aprisionar! Face aos fariseus e aos grandes mestres rabinos do seu tempo, Jesus estabelece uma enorme diferença: enquanto aqueles punham pesados fardos às costas das pessoas (sobretudo dos mais simples e humildes), fazendo de Deus um autêntico carrasco e opressor com incontáveis proibições, leis e mandamentos, Jesus anuncia, vive e pede algo de muito mais simples, pede apenas o amor a Deus e ao próximo e a confiança num Deus que perdoa porque é misericordioso, compreensivo e bom (e do qual, portanto, não há que ter medo).
LIDERAR NÃO É SUBSTITUIR
1. Na Igreja actual, continua aberta a questão da sinodalidade, como regime da Igreja, que exige a colaboração de todos os baptizados: caminhar juntos na evangelização, a não confundir com a tentação do proselitismo. Foi a grande intuição do Papa Francisco, anunciada a 9 de Outubro de 2021.
A concretização deste caminho é exaltante, apresentada como Comunhão, Participação, Missão. É exaltante, mas também corre alguns riscos e o Papa apontou três.
O formalismo que pode reduzir um Sínodo a um evento extraordinário, mas de fachada, precisamente como se alguém ficasse a olhar a bela fachada duma igreja sem nunca entrar nela. Às vezes há algum elitismo na ordem presbiteral, que a separa dos leigos; e, no fim, o padre torna-se o «patrão da barraca» e não o pastor de toda uma Igreja que está a avançar. Isto requer a transformação de certas visões verticalizadas, distorcidas e parciais sobre a Igreja, o ministério presbiteral, o papel dos leigos, as responsabilidades eclesiais, as funções de governo, etc..
O intelectualismo que pode levar à abstracção: a realidade vai para um lado e nós, com as nossas reflexões, vamos para outro.
O imobilismo repete “fez-se sempre assim”. Esta expressão é um veneno na vida da Igreja. Para esta mentalidade é sempre preferível deixar as coisas como estão, não mudar. Quem se move neste horizonte, mesmo sem se dar conta, cai no erro de não levar a sério o tempo que vivemos. O risco é que, no fim, se adoptem soluções velhas para problemas novos: um remendo de pano cru, que acaba por criar um rasgão ainda maior (cf. Mt 9, 16).
Bergoglio lembra, neste discurso, a obra pioneira de Yves Congar, O.P., Verdadeira e falsa reforma na Igreja (1994)[1].
Entretanto, já foram realizadas duas Assembleias sinodais (2023 e 2024). Nos inícios de 2025, o Papa foi hospitalizado, mas este Pastor não abandonou o seu rebanho e continuou a trabalhar na programação do processo sinodal até 2028. Programação que temos até hoje. No dia de Páscoa, já com muita dificuldade, quis descer até à Praça de S. Pedro e abençoar as pessoas ali reunidas. Terminou o seu pontificado no final dessa noite.
Leão XIV continuou o programa sinodal, desenhado por Bergoglio, não tendo caído no risco do imobilismo, “sempre assim foi”. Tem demonstrado, numa forma original, que prossegue o caminho aberto por Francisco. Não esqueceu o grande lema de Santo Agostinho: Para vós sou bispo, convosco sou cristão. A verdadeira liderança, nas comunidades cristãs, não substitui ninguém, convoca e anima a caminhada de todos, todos, todos. Liderar não é substituir, é servir. Neste sentido, é que a Igreja pode ser uma luz para toda a sociedade.
2. Dispomos, como referências fundamentais, não apenas aquelas que existem para conhecer Jesus Cristo – os 4 Evangelhos – mas também o começo da história da Igreja nascente: os Actos dos Apóstolos e as Cartas, sobretudo Pedro e Paulo.
É atribuída a S. Lucas a brilhante primeira história da Igreja sinodal. «No meu primeiro livro, ó Teófilo, narrei as obras e os ensinamentos de Jesus, desde o princípio até ao dia em que, depois de ter dado, pelo Espírito Santo, as suas instruções aos Apóstolos que escolhera, foi arrebatado ao Céu»[2]. Mas não foi para férias divinas. Tornou-se imanente, foi e cumpriu a promessa.
Não é uma história apologética. Não oculta os conflitos. É uma visão realista dos acontecimentos, contando sempre com a força e clarividência do Espírito de Cristo. É frequente a expressão: disto somos testemunhas, nós e o Espírito de Deus.
Ficará para sempre como memória actuante da primeira comunidade dos discípulos de Jesus de Nazaré, o Cristo: A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma. Ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas entre eles tudo era comum. Não havia ninguém necessitado, pois todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas, traziam o produto da venda e depositavam-no aos pés dos Apóstolos. Distribuía-se, então, a cada um conforme a necessidade que tivesse[3].
Há a conversão de Paulo, um judeu perseguidor acérrimo dos adeptos do Caminho, que passa a discípulo destemido.
«Entretanto, os crentes tinham-se dispersado por causa da perseguição que começou com a morte de Estêvão. Uns foram até à Fenícia, Chipre e Antioquia e anunciavam a palavra de Deus só aos judeus. Outros, que eram de Chipre e de Cirene, foram até à cidade de Antioquia e ali pregavam também aos gregos anunciando-lhes a boa nova a respeito do Senhor Jesus. A mão do Senhor estava com eles e muita gente acreditou e se converteu.
Esta notícia chegou aos ouvidos dos crentes da igreja de Jerusalém que mandaram Barnabé a Antioquia. Quando ele lá chegou e viu os efeitos da graça de Deus ficou muito contente. E aconselhou todos a continuarem, com todo o coração, a serem fiéis ao Senhor. Barnabé era um homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé. Assim muita gente se converteu ao Senhor.
Barnabé foi depois à cidade de Tarso buscar Saulo [Paulo]. Quando o encontrou, levou-o para Antioquia. Estiveram ali durante um ano com os crentes daquela igreja e ensinavam muita gente. Foi em Antioquia que os discípulos foram pela primeira vez chamados cristãos[4].
Entretanto, o conflito entre os cristãos gregos e os de origem judaica aumentou e sentiram a necessidade de convocar um concílio sinodal em Jerusalém. Após grande debate entre as duas facções, Pedro levantou-se e disse: «Sabem muito bem, irmãos, que desde os primeiros dias Deus me escolheu de entre vós para que os não-judeus ouvissem da minha boca a palavra do evangelho, e também eles pudessem receber a fé. E Deus, que conhece o coração de todos, mostrou-se favorável para com eles dando-lhes o Espírito Santo, assim como o tinha dado a nós. E não distinguiu entre nós e eles, tendo pela fé purificado os seus corações. Agora, porque pondes Deus à prova, impondo um jugo aos discípulos que nem os nossos pais nem nós tivemos força para levar? Além disso, é pela graça do Senhor Jesus que acreditamos que seremos salvos, exactamente como eles. Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor outro jugo. Toda a assembleia ficou em silêncio e ouviram Barnabé e Paulo a descrever os milagres e prodígios que Deus realizara entre os pagãos, por intermédio deles[5].
3. Levaram Paulo para Atenas. Enquanto esperava os companheiros, indignava-se com o espectáculo desta cidade cheia de ídolos. Mas isto mesmo lhe serviu para anunciar Jesus Cristo, no Areópago: «Atenienses, vejo que sois, em tudo, os mais religiosos dos homens. Percorrendo a vossa cidade e examinando os vossos monumentos sagrados, até encontrei um altar com esta inscrição: Ao Deus desconhecido. Pois bem! Aquele que venerais sem o conhecer é esse que eu vos anuncio. É Nele, realmente, que vivemos, nos movemos e existimos, como também o disseram alguns dos vossos poetas. Somos todos da raça de Deus»[6].
Leão XIV não repete o passado e não esquece a história, para vivermos os desafios de hoje.
Fr. Bento Domingues in Público, 28/6/2026
[1] Discurso do Papa Francisco, 09.10.2021
[2] Act 1, 1-3
[3] Act 4, 32-37
[4] Act 11, 19-26
[5] Cf. Act 15
[6] Cf. Act 17, 22-34
Novo vídeo com o testemunho do Fr. José Nunes, OP nos 40 anos da presença dominicana em Angola (Waku-Kungo).