9 DE AGOSTO - 19º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A
O povo bíblico estava acostumado a associar a presença e manifestações de Deus a grandes acontecimentos ou extraordinários fenómenos da natureza: nuvens especiais, terramotos, fogo, etc. Mas na primeira leitura de hoje, Deus revela-se a um profeta de outro modo: numa brisa suave. Que significará isto? Pois bem, algo de muito simples mas importante: não queiramos (muito menos exijamos) acreditar em deus apenas se vemos milagres espectaculares ou se Ele nos faz todas as nossas vontades e realiza os nossos pedidos ou caprichos. Deus fala-nos e revela-se através de coisas bem simples. Podemos e devemos dar um sentido cristão e divino a todo o tipo de experiência que fazemos: se estamos sós ou com amigos, se estamos no trabalho ou em férias, se caminhamos nas ruas ou vamos em transporte públicos, se nos encontramos em família ou com vizinhos, se estamos com saúde ou na doença, se experimentamos alegria e entusiasmo ou sentimos tristeza e angústia, etc. Deus acompanha-nos e vela por nós e fala-nos através das coisas simples e normais da vida.
S.Paulo foi um grande missionário e pregador. Primeiro dirigiu-se aos judeus, povo bíblico e que parecia ter mais condições de aceitar a Cristo. Mas não foi isso que aconteceu. Foram sobretudo os pagãos (os não-judeus, como os gregos ou romanos ou habitantes da Ásia menor) que aderiram ao evangelho de Jesus; e então, Paulo diz-se triste e com pena porque os judeus não se convertem a Cristo. Isto faz lembrar o que se passa nos nossos dias: temos pena que muitos jovens não vivam entusiasmados a sua fé e abandonem a Igreja, os avós (e alguns pais) têm pena que os filhos não sejam praticantes de missa ou já não casem pela Igreja… Enfim, tudo isso são reacções normais e legítimas… Mas o mais importante é que continuemos nós a dar humilde testemunho do evangelho e que até saibamos reconhecer que muitos valores evangélicos são vividos pelos ‘não-praticantes’, ou seja, há muito boa gente que não frequenta habitualmente a Igreja mas procura ser honesta, solidária, amar e lutar pela justiça e pela paz.
No trecho do evangelho, sublinha-se a importância de ter fé, de crer, de acreditar! Quem não tem fé, quem não acredita, esse perde o sentido para a vida, desanima, cruza os braços, afunda-se – como Pedro nas águas de Tiberíades. A fé é um dom maravilhoso que Deus nos deu e dá: empresta-nos um olhar renovado sobre tudo o que nos é dado viver. E, desde logo, oferece-nos uma força e uma coragem para as ‘tempestades’ da vida por que todos passamos: nós somos simbolizados pela barca que é açoitada pelas ondas, mas é preciso não esquecer que Jesus vai connosco na barca, não dorme nem nos deixa afogar.
A SABEDORIA E A LOUCURA
1. Na Bíblia, os acontecimentos mais importantes são anunciados em sonhos. Quando se fala de sonhos parece que, até os mais belos, são apenas fruto do desejo sem realidade. Não é essa a expressão poética de António Gedeão: «Eles não sabem, nem sonham,/ que o sonho comanda a vida./ Que sempre que um homem sonha/ o mundo pula e avança/ como bola colorida/ entre as mãos de uma criança»[1].
Hoje, quem participar na celebração da Eucaristia, pode escutar um sonho de Salomão sobre a sua relação com Deus e de Deus com ele.
«O Senhor apareceu em sonhos a Salomão durante a noite e disse-lhe: Pede o que quiseres. Salomão respondeu: Senhor, meu Deus, Vós fizestes reinar o vosso servo em lugar do meu pai David e eu sou muito novo e não sei como proceder. Este vosso servo está no meio do povo escolhido. Dai, portanto, ao vosso servo um coração inteligente, para governar o vosso povo, para saber distinguir o bem do mal; pois, quem poderia governar este vosso povo tão numeroso? Agradou ao Senhor esta súplica de Salomão e disse-lhe:
Porque foi este o teu pedido e já que não pediste longa vida, nem riqueza, nem a morte dos teus inimigos, mas sabedoria para praticar a justiça, vou satisfazer o teu desejo. Dou-te um coração sábio e esclarecido, como nunca houve antes de ti nem haverá depois de ti[2].
A sabedoria e a paz não podem existir sem a justiça. O Salmo 85 atreve-se a sonhar: O amor e a fidelidade vão encontrar-se. Vão beijar-se a justiça e a paz. A loucura parece ser o regime dos grandes deste mundo.
Os Actos dos Apóstolos foram buscar ao profeta Joel a universalização dos sonhos: Os vossos filhos e as vossas filhas hão-de profetizar, os vossos jovens terão visões e os vossos velhos hão-de ter sonhos[3].
2. Foi a realidade que fez sonhar o Padre Américo (1887-1956). Celebramos os 70 anos da sua morte. Quem era ele? Depois de muitas andanças e portas fechadas, o bispo dom Manuel Luís Coelho da Silva recebeu-o na diocese de Coimbra e permitiu-lhe iniciar os estudos. Tinha trinta e oito anos quando entrou no Seminário Maior de Coimbra. Chegava mais tarde do que os restantes, mas trazia uma experiência de vida invulgar: conhecia o trabalho, o comércio, a emigração, o ambiente colonial, a disciplina franciscana e o peso de sucessivos recomeços. Era a matéria humana sobre a qual o sacerdócio haveria de assentar.
O seu lugar começou a revelar-se a 19 de Março de 1932, quando o bispo dom Manuel Luís Coelho da Silva lhe confiou a direcção da Sopa dos Pobres, em Coimbra. O que parecia apenas uma nomeação de início de ministério marcou a inflexão decisiva da sua vida: encontrava, finalmente, o povo a quem seria enviado.
Os anos seguintes transformaram-no. A pobreza ganhava rosto, nome e história. Muito antes, ao ser ordenado subdiácono, fizera o voto de desejar apenas a verdadeira riqueza que o mundo ignora e que se chama altíssima Pobreza de Nosso Senhor Jesus Cristo. «Eu não sei viver mais nada, eu não sei dizer mais nada, eu não sei sentir mais nada, senão somente o pobre e este Crucificado».
O padre António Baptista recorda que o Pai Américo nunca planeou fundar uma instituição para rapazes abandonados; foram eles que lhe mostraram o caminho. Um pequeno grupo, acolhido provisoriamente, pediu-lhe: Deixe-nos ficar aqui sempre[4].
O Evangelho que se proclama neste Domingo é uma parábola: «O Reino de Deus é semelhante a um tesouro escondido num campo, que um homem encontra. Volta a escondê-lo e, cheio de alegria, vai, vende tudo o que possui e compra o campo. O Reino de Deus é também semelhante a um negociante que busca boas pérolas. Tendo encontrado uma pérola de grande valor, vende tudo quanto possui e compra a pérola».
O tesouro, a pérola, do Padre Américo eram os pobres, os abandonados. Um sonho que nasceu dos últimos.
3. Em 2021, o Papa Francisco instituiu o Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, a quem chamou novo povo. Celebra-se anualmente no IV Domingo de Julho, muito próximo da festa litúrgica de São Joaquim e Santa Ana, considerados os avós de Jesus. Este ano é celebrado a 26 de Julho. Leão XIV não deixou cair esta data.
«Sobre a existência de muitos idosos, em particular, parece estender-se um véu que esbate as feições dos rostos e relega ao esquecimento. É o que acontece nas casas onde reina a solidão e também naqueles asilos onde a singularidade de cada pessoa corre o risco de ser reduzida ao número da sua cama ou à sua patologia.
A celebração do Dia Mundial dos Avós e dos Idosos é uma oportunidade para redescobrir que a Igreja é chamada a ser mãe de todos e que é sempre possível, em qualquer idade, descobrir-se filhos e filhas de Deus.
A Igreja conhece o sofrimento dos seus filhos mais idosos, sabe bem que demasiadas vezes se olha para eles com preconceitos e são considerados um fardo; está ciente de que uma economia centrada no lucro enfraquece os laços familiares; sabe que muitos idosos são abandonados pelos filhos. Por estas razões, alegra-se [a Igreja] em anunciar a promessa do Senhor: Eu nunca te esquecerei!
Em qualquer idade da vida, mas especialmente quando já não somos jovens, é gratificante descobrir, como disse João Paulo I, que somos destinatários “da parte de Deus, dum amor que não se apaga. Sabemos que tem os olhos sempre abertos para nos ver, mesmo quando parece que é de noite. Ele é Abbà (papá), mais ainda, é mãe”. Embora não seja espontâneo pensar assim, a verdade é que, mesmo na velhice, não deixamos de ser filhos e filhas e, por isso, permanece válido, todos os dias, o convite a regressar aos braços de Deus, cujo amor é paternal e maternal ao mesmo tempo»[5].
De facto, foi o Papa João Paulo I que, a 10 de Setembro de 1978 durante o Angelus, se dirigiu a Deus como pai e mãe. Na altura, foi muito criticado mesmo no interior da Cúria Romana. Tinham medo que fizesse desta expressão teológica o princípio da teologia feminista? Agrada-me muito que Leão XIV a tenha adoptado.
Como diz a Magnifica Humanidade, «vivemos numa época de notável cegueira espiritual e cultural. Um falso pragmatismo convida-nos a cortar as raízes da memória, como se fosse possível inaugurar uma espécie de nova criação desligada do passado; mesmo quem invoca grandes princípios morais pode cair neste niilismo histórico, iludindo-se com a ideia de que as atrocidades do século XX não se podem repetir. Na realidade, as mesmas dinâmicas ressurgem sob novas formas. Parece voltar a impor-se a lógica do equilíbrio armado e da dissuasão» (204).
O lema deste Papa é desarmar porque a loucura maior é a guerra. A sabedoria e a misericórdia são a Paz.
Boas férias e até Setembro.
Fr. Bento Domingues in Público, 26/7/2026
[1] Pedra Filosofal, cantado por Manuel Freire
[2] 1Rs 3, 5.7-12
[3] Act 2, 17
[4] Cf. Henrique Manuel Pereira, Padre Américo morreu há 70 anos: “Quem não conhece as obras, como pode aceitar os argumentos?”, 7 Margens 14.07.2026
[5] Cf. Mensagem do Papa Leão XIV para o Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, 2026.
Novo vídeo com o testemunho do Fr. José Nunes, OP nos 40 anos da presença dominicana em Angola (Waku-Kungo).